MST
                      (Movimento dos Sem Ternura) 

                    Rosa Pena




Elvira foi criada numa casa colada a um convento. O sino tocava forte a cada quarto de hora. Quem lá chegava de mudança reclamava do badalar alto. Ela estava tão habituada que já nem ouvia ou se ouvia não se apercebia, pois o havia adicionado aos ruídos do mundo. Um dia por questões internas da clausura, o sino parou de tocar. A partir daí Elvira sentiu uma saudade imensa do barulho dele, que ela sequer percebia quando tocava. Sentiu um vácuo danado!

Tudo que cessa parece que é vazio, tem cheiro de derrota, gosto de abandono.

Três dias depois acordou com o som de passarinhos. Tinha pássaros ali? Nunca tinha ouvido, o barulho do sino abafava o trinado dos canários. Que divino!
Percebeu então que durante anos seus ouvidos haviam perdido um precioso som por estarem condicionados ao blim blom do danado do sino. 

Tudo que começa parece que é cheio, tem cheiro de original, gosto de novo.

 
O início foi idêntico ao final. De repente. Elvira nem sabe bem quando, mas um dia notou que o tal amor estava extinto. Amor? Pelamordedeus não use a santa palavra em vão! Era apenas exercício de sedução para ele.
Ela sentiu de forma brutal, parecido com o silêncio do sino! 

Tudo que cessa parece que é vazio, tem cheiro de derrota, gosto de abandono.

Mas foi só até ela conseguir ouvir novamente sua própria risada. Veio o alívio, a vontade de trinar bem alto que nem os passarinhos!
 O sino, o som do desamor cessou. 

O peso sumiu, tudo ficou mais claro e o tempo virou seda novamente, tinha mudado pra lycra que estica e puxa, forma de suportar tanta diferença. Foi uma relação de subtração, ele o minuendo sugando o melhor dela, fazendo-a se sentir o resto. Bendito direito readquirido de poder ser novamente adição de muitas parcelas com prova real, ser divisão exata onde não há excessos, ser multiplicação de afeto, ser a raiz quadrada do apego aos que sempre estiveram ao seu lado.

Por que antigo virou sinônimo de gasto para alguns? Rembrandt já entrou alguma vez em liquidação? Onde? Quando? Ninguém avisou!

Elvira sentiu o quanto é bom se vestir novamente de suas próprias cores, apreciar o cheiro do capim sem agrotóxicos, descobrir que o sabor do fim não é tão ruim, quando ele é um tropeço do destino, uma equação impossível criada só para desestabilizar a conclusão de sua biografia. Questão anulada! Aliás, existiu realmente ou foi arte de um fantasma descendente de uma ópera? Que fique claro: Ópera do Malandro! Ah...O cheio no antigo, o original no vivido! Não apenas porque tudo que começa ou recomeça tem esse jeito bonito de ser. Ela atualmente tem consciência que o sebo novo pode ser mais rançoso que um óleo de boa qualidade bem guardado na frigideira do passado. Por fim descobriu que o cheio e o vazio não são imediatos. É como casa própria suada que se constrói devagarzinho. A sua é simples, mas maciça, florida de crianças, muito sol em qualquer estação, cheiro de café fresquinho e seu rosto sorrindo nos porta-retratos de hoje e de outrora.
Foi construída em meio século de vida e não num semestre qualquer.

Ele? Vaga entre quartos pré-fabricados, blasfemando contra as arquiteturas duradouras. Um eterno inquilino do coração alheio. A qualquer momento tem ordem de despejo ou sai correndo para não pagar as despesas de um amor consolidado. 

Será que foi ele quem criou o MST? Movimento dos Sem Ternura.

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 26/11/2006
Alterado em 27/08/2008
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